

Chegamos ao bairro, o ônibus cheio dos irmãos da Igreja demorava a se esvaziar, pois as senhoras tinham dificuldades para descerem as escadas. Finalmente, consegui sair do ônibus, e agora, meu coração se apertava mais do que já estava em todo o caminho. Eu ansiava ver logo a minha amiga. Passamos por muitas pessoas na frente da casa; o clima ali não era diferente do que se encontra em outros velórios. Depois de entrar, caminhei pela longa garagem onde muitas outras pessoas estavam sentadas a olharem aquele grupo de pessoas (entre as quais estava eu) que entravam juntas como se estivessem entrando em suas próprias casas. Comigo não foi diferente, entrei pisando firme, sabia bem o meu foco, aonde eu queria chegar. APENAS NA MINHA AMIGA! Como alguém perdido em uma multidão era eu a procurar a minha amiga. Na cozinha da casa encontrei o seu irmão, ele parecia forte; me aproximei dele, e ele esperava um aperto de mão, mas lhe dei um abraço enquanto ele dizia com um certo cansasso (afinal naquela situação desde ontem) "-É difícil ter que suportar isso! Agora somos eu, minha mãe e minha irmã". Aquilo foi de me cortar o coração. Me imaginei no lugar dele, e então uma grande agonia me tomou. Enquanto os outros queriam falar com ele, me afastei aos poucos.Continuei a procurar pela casa por minha amiga, em uma das salas, estava a Tia Dora, também muito cansada, porém demonstrando força falava ao celular com algum parente. Passei pela segunda vez pelo caixão que estava lacrado, mas não quis olhar para dentro dele sem antes encontrar a minha amiga que estava dentro do quarto da mãe sentada na beira da cama. Embora houvessem outras pessoas ali, ela estava sentada sozinha. Entramos eu e o Vinícius, me sentei de um lado, e ele do outro. Enquanto eu a abraçava, ele ia dizendo palavras de conforto e encorajamento a ela. Eu, sem fôlego e com o coração muuuito apertado, falava apenas quando necessário, e mesmo assim, frases bastante curtas. Eu queria apenas que ela soubesse que eu estava ali com ela. As pessoas entravam, falavam com ela e saíam, mas eu ela e Vinícius permanecemos ali. Ela se confortava no amor e na fidelidade do nosso Deus, e conseguia se lembrar e contar de coisas que viveu junto de seu pai. Seus conselhos, seu carinho, seu cuidado, seu amor, sua provisão, sua força e coragem no trabalho. A gente que estava de fora, sempre pôde perceber como nela havia um carinho, respeito e adimiração muito grande pelo seu pai. Agora aquele coração em cacos, quebrado não sabia por onde recomeçar, e agora, abalada, como poderia começar a recontruir com a mãe e o irmão o que sobrou de toda esta desestruturação que causou a morte do seu pai. Ah, como me cortava o coração ver ela contar as suas lembranças do pai sempre tão trabalhador, companheiro de seu irmão. Seu refúgio...
Foi assim, chorando com a minha amiga no momento da sua dor, que me chamaram; o ônibus no qual estávamos de carona já ia embora, eu não queria ir, mas era preciso. Dei-lhe mais um abraço, e disse que precisava ir, nessa hora, o rosto da minha amiga fez um expressão de choro que não aguentei ver; e aos pouco, enquanto outras pessoas foram falar com ela, que eu saí dali.
Sherle, amiga: Te amo muuuito. Compartilhe comigo nesta hora um pouco do seu sofrer. Que o Senhor te restaure, e encaixe todas as coisas no seu devido lugar ao Seu tempo.